Impertinências, António, Freitas Cruz, Jornalista
Se bem me lembro, foi o presidente Cavaco Silva quem, no seu tempo de primeiro-ministro, lançou as ideias e os incentivos em favor da participação dos cidadãos comuns no capital das empresas.
Uns seriamente, outros com maldade, por elogio ou para crítica, todos baptizaram o fenómeno como "capitalismo popular". Nessa saga de liberalização económica, as privatizações e os aumentos de capital reservavam ao público em geral, e em especial aos respectivos trabalhadores, largas fatias para subscrição, acompanhadas por estímulos fiscais. Foi uma época eufórica e que parecia não ter fim "Vais à Cimpor?" ou "Foste à Brisa?" eram, por exemplo, perguntas que se cruzavam nas ruas.
Depois, mais cedo do que esperavam os aforradores de boa vontade, o fenómeno arrefeceu. Os próprios governos se encarregaram de lhe atirar grandes baldadas de água, cortando ou diminuindo os incentivos. Se não estou em erro, também a degradação da economia deixou as pessoas mal de recursos e o "capitalismo popular" perdeu saúde.
Só que agora, se me consentem um atrevimento mais emocionado do que raciocinado, o dito "capitalismo popular" faliu! Não o digo por desgosto ou prejuízo pessoal na verdade, desde há mais de dez anos que lhe não dou qualquer crédito ou atenção. Mas temo que não tenha sido uma boa coisa.
E faliu como? Precisamente na cena final da novela do BCP, quando os quase 600 votos de Miguel Cadilhe valeram 2,14% e 200 e tal deram 97,8% a Santos Ferreira. Golpe edificante o Estado (socialista, não é?) também votou contra o "capitalismo popular"!
Eis uma confirmação inequívoca, e se calhar inevitável, de que o poder do dinheiro não aceita moderações. Não acredito que, depois disto, seja possível reconstruir o edifício.
António Freitas Cruz escreve no Jornal de Notícias, semanalmente, aos domingos
Publicado por dizerbem em janeiro 20, 2008 04:34 PM | TrackBack